| Por Lari Paes,
em 17 de agosto de 2009
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Faltam ainda vinte voltas e você já sente seus pés latejando. Seus músculos queimam enrijecidos pelo esforço. Sua cabeça dói. E a cada passada que você dá parece que está mais longe de terminar a prova. Alguém cai atrás de você. Nem se dá ao trabalho de olhar para trás, melhor não se desconcentrar. Dezenove voltas. As curvas te desgastam e tiram as forças que você tenta inutilmente guardar. Da multidão, surgem vozes que você quer desesperadamente ignorar, sem sucesso. As vozes dizem para você seguir em frente, está indo bem, não desista. Ora, a quem estão tentando enganar? Já está quase tudo perdido. De repente você sente alguém te empurrando. Não foi com força, mas a pista estava muito lisa, e você cai. A dor lacinante dos ralados logo te invadem e você olha à sua volta sem saber o que fazer. Ainda lhe faltavam quinze voltas. Então você olha para a platéia. Seu treinador grita que se levante, mas a voz na sua cabeça o contraria: você já fez o suficiente, não conseguirá fazer mais que isso. Você então vê a esperança estampada no rosto da sua equipe. Aquelas pessoas acreditam em você. Vamos, levante e mostre do que é capaz. Então tudo te acerta como de súbito. Não adianta ficar sentado enquanto o seu sonho escapa pelos dedos. Todo o seu esforço foi em vão? Anos treinando para que acabe assim, em cinzas? Você se levanta como se fosse de repente outra pessoa. Em seus olhos o ódio da pessoa que lhe derrubou é explícito, e a sua determinação está formada, imutável. De repente você esquece a dor, o cansaço, as vozes. A única coisa que você vê é a pista. A única coisa que você sente é a velocidade embaixo dos seus pés. A única coisa que você ouve é o seu coração martelando em sua cabeça e te dando forças renovadas. Você está os alcançando. Sete voltas. Ali está, na sua frente, o imbecil que acabara de te deixar no chão. Mal sabia ele que você voltaria. Não, você não o empurra de volta, apesar da tentação. Você vai ganhar dele com orgulho, vai humilhá-lo. Na curva, ele fecha. Você tenta passar por fora, sem êxito. Mas na próxima curva, o passa de maneira sensacional. Você voltou ao pelotão. Só lhe restam cinco voltas para passar o resto deles. Vai ser difícil, mas você tem que tentar, já chegou até aqui. Ultrapassa cinco de uma vez, e agora há dois pelotões, o normal, e um seu. Uma disputa muito complicada, e o sangue fresco na sua perna ainda escorre, mas você sabe que ainda há um jeito. Duas voltas. Todos já estão acelerando como loucos, e você ainda precisa passar mais três. As pessoas que estavam no seu pelotão entram no outro, desistem de tentar algo impossível. Última volta, o sino toca. Passaria o resto da sua vida perguntando como conseguiu fazer aquilo, mas você o fez. Você passou. Na última reta, sua última chance, sua última esperança fez com que você tirasse forças para ir até o fim com tudo. E então você chegou em primeiro lugar. Seu treinador, com um sorriso enorme no rosto e as preciosas palavras. “Eu sabia que conseguiria.”
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